17 anos a olhar o Funchal
Pois é, o tempo passa. Parece vagaroso, mas depressa galga os anos enquanto esfregamos os olhos para a próxima fotografia.
Recordo que no dia 29 de abril de 2009, a luz amanheceu diferente sobre o Funchal.
Tinha delineado e, nesse dia, decidi tornar o meu olhar num compromisso — silencioso, diário, com a cidade que pulsa entre o mar e a montanha.
Hoje, 17 anos depois, sinto-me como quem percorreu um longo caminho de luz,
onde cada passo é uma fotografia, cada fotografia, um instante guardado, e cada instante, um pedaço da minha alma entregue ao Funchal, capital da bela ilha da Madeira.
6.221 publicações. Não são números frios, mas batimentos de um coração que nunca parou de bater por esta cidade. Todas partilhadas, feitas por mim, pelas ruas que conheço como asas, miradouros que se tornaram amigos, e pela luz que me ensinou a ver além do que os olhos alcançam.
Muitas vezes fotografo com o telemóvel, porque as minhas fotografias não são encenadas, nem preparadas. São momentos irrepetíveis, que nascem num piscar de olhos e desaparecem logo a seguir. Momentos que não permitem voltar atrás, não dão espaço para regressar com a câmara fotográfica, porque eles passam, como o vento, como a luz, como o tempo. E o telemóvel está sempre à mão, pronto para capturar o que a vida oferece sem avisar.
Em outras ocasiões utilizo a minha Canon 100D, já com alguns anos. Ela tem acompanhado muitos dos meus dias, mas revela limitações — tanto o corpo da câmara como a lente.
Gostava, nestes 17 anos, de dar novos passos no sentido de utilizar equipamento profissional que permitisse dar um novo passo, elevar a qualidade das minhas imagens e continuas a captar a essência do Funchal com mais clareza, com mais luz, com mais vida.
Mas a vida é como é.
Seja como for, Funchal Daily Photo tornou-se mais do que um projeto — resultou num diário de luz e tempo, um testemunho íntimo e terno da cidade que nunca se repete, mesmo quando o olhar se fixa no mesmo lugar.
São mais de 2,54 milhões de visualizações, um número que, quando penso, me enche de gratidão e espanto.
Embora esteja ciente que muitas são de pessoas que me seguem por esse mundo fora,a verdade é que este número corresponde, aproximadamente, a 1/4 da população portuguesa.
São milhões de olhos, de Portugal e de todos os quadrantes internacionais, que tiveram a oportunidade de ver o Funchal através dos meus olhos, o que muito me orgulha.
Do outro lado do mundo, as palavras chegam: elogios, mensagens, palavras de apreço que guardo como quem guarda gotas de chuva secas ao sol.
O New York Times passou por aqui, trouxe a Madeira para as suas páginas icónicas,
e eu, nesta esquina invisível do mundo, vi o meu olhar atravessar o oceano.
Este projeto é algo raro — um ato de virtuosismo silencioso, aclamado de longe,
único em Portugal.
Talvez um dia venha a merecer a atenção que julgo devida de entidades que desviam os olhares, e que estas venham a perceber o valor que o projeto carrega, a memória que acumula, a identidade que preserva, o amor que, todos os dias, se espalha pela cidade em forma de imagem. Por muito menos, não pelo valor do seu percurso, mas pelos anos de atividade, outros foram galardoados. Aguardemos.
Olho para trás e vejo uma longa corrente de dias, cada um com a sua luz, o seu sussurro, o seu gesto de amor.
Sou grato a todos os que, ao longo destes 17 anos, me escreveram, me comentaram, me acompanharam, que encontraram nas minhas imagens o seu próprio brilho sobre o Funchal. Essas palavras, guardadas no peito, são o combustível que me faz continuar.
Enquanto houver luz, enquanto o Funchal continuar a nascer todos os dias, estarei ali, com a máquina fotográfica e com o telemóvel na mão e o coração aberto, a olhar, a captar, a partilhar. Porque o Funchal merece este olhar. Merece ser olhado todos os dias e perpetuado em fotografias de momentos que jamais se repetem.

1 comments
Congrats to 17 years of blogging.
ResponderEliminarOlá,
Obrigado pelo comentário. Volte sempre.
Paulo Camacho